Graduado em Filosofia, especialista em Cooperativismo,
Mestre em Educação nas Ciências e Doutor em
Ciências Econômicas Sociais, pela Universidade de
Osnabrück, na Alemanha, Antônio Inácio Andrioli
é um dos autores do livro “Transgênicos: as
sementes do mal – A silenciosa contaminação
se solos e alimentos”. Professor do curso de Mestrado em
Educação da Unijuí, e partindo para atuar
como professor da universidade de Linz, na Áustria, Andrioli
fala sobre as discussões acerca da transgenia, defendendo
a agricultura sustentável, comprometida com o meio ambiente.
Você tem uma biografia bastante abrangente, abordando
diferentes assuntos em seus livros. És mestre em Educação,
doutor na área de economia e sociologia e domina o tema
da transgenia. Qual a relação que você enxerga
em todos estes temas?
Antes disso eu atuei como técnico agrícola e cursei
Filosofia na Unijuí. Isso pode parecer um tanto estranho,
mas há um fio condutor nessa trajetória: eu procurei
estudar problemas dessa região de uma forma abrangente
e multidisciplinar. No mestrado eu pesquisei uma prática
educativa que coordenei durante seis anos na região da
Grande Santa Rosa: o Programa de Cooperativismo nas Escolas. A
educação cooperativa eu continuei abordando no doutorado,
com os problemas relacionados à introdução
da soja transgênica nessa região. Embora nessa tese
(da qual posteriormente resultou outro livro), eu tenha abordado,
centralmente, a agricultura familiar, nas conclusões fica
claro o caminho percorrido: a única possibilidade de resistência
aos transgêncios é a organização social
de agricultores e consumidores, um processo educativo que envolve
o cooperativismo e o associativismo.
Atualmente defende-se o desenvolvimento de uma agricultura
sustentável, que respeite as questões ambientais.
Contudo chegamos a um ponto onde as tecnologias (transgenia e
defensivos) dominam o sistema de produção. Tendo
em vista esta situação, você acha que hoje
o meio ambiente ainda tem alguma chance, ou entramos em um caminho
sem volta?
Isso depende da mobilização e organização
social das pessoas envolvidas na produção e no consumo
de alimentos. Na agricultura, os problemas sociais e ambientais
andam juntos. A preservação da natureza é
uma condição para que se possa produzir e economicamente
é de interesse dos agricultures A assim chamada modernização
da agricultura gerou destruição ambiental e exclusão
social. Para que possamos produzir de forma ecologicamente sustentável
e socialmente justa, as pessoas que usam a tecnologia precisam
participar no desenvolvimento desta. Isso é possível
com as assim chamadas tecnologias socialmente e ecologicamente
apropriadas, nas quais os agricultores se tornam pesquisadores
participantes e os técnicos contribuem em forma de assessoria,
não de mera transferência tecnológica ou “insistência
técnica” como é comum acontecer na agricultura.
Repetindo uma questão que o sr. mesmo fez em seu
artigo “Tecnologia e Estrutura Social” a quem afinal,
o desenvolvimento técnico atual serve?
Na sociedade capitalista o desenvolvimento técnico é
conduzido pela acumulação de capital. Não
é o valor de uso (utilidade) de uma mercadoria que interessa,
e sim o seu valor de troca (preço). A técnica é
desenvolvida para aumentar a capacidade produtiva do trabalho
e controlar seu ritmo e intensidade, para que, ao final, a produção
de mercadorias seja mais lucrativa (aumente o capital investido).
Trata-se de um processo de exploração duplo: do
ser humano e da natureza. Mas, isso não necessariamente
precisa ser assim. A natureza poderia servir à satisfação
de necessidades humanas de forma sustentável, permitindo
uma melhor qualidade de vida e os resultados do trabalho poderiam
ser socializados de tal forma que houvesse uma diminuição
da sua jornada, com mais tempo livre para as pessoas construirem
novas relações sociais e humanas.
Tivemos uma grande briga há alguns anos para aprovar
o plantio de soja transgênica. Hoje uma nova polêmica
se estabelece e relativa às sementes de milho genéticamente
modificadas. Uma briga judicial ocorre e, uma decisão tomada
hoje (10/01) permite o início do plantio, o que já
havia sido feito pela CTNBio e proibido por outra decisão
judicial. Qual a sua opinião sobre essa liberação?
Esse é um conflito que continua. Não se trata de
um problema estritamente técnico, como alguns tentam caracterizà-lo,
e sim de um debate político sobre os recursos naturais
desse país, sua enorme riqueza em biodiversidade, e a quem
eles devem servir: aos interesses de algumas multinacionais da
indústria química ou ao conjunto da população.
A liberação de trangênicos no Brasil é
inconstitucional, pois não foram apresentados estudos de
impacto ambiental como prevê a Constituição
Federal em vigor, não há regras para a liberação,
ela ocorre através de uma comissão que não
é competente na área de biossegurança, não
tem representatividade da sociedade civil e é constituída
por cientistas que, em sua maioria, estão diretamente interessados
em pesquisas de transgenia com financiamento das multinacionais.
Além de ser um escândalo político ter uma
comissão com mais poder do que os ministros e o parlamento,
a liberação da soja, do milho e do agodão
transgênicos fere, no mínimo 3 princípios
do direito ambiental: da precaução, da sustentabilidade
e da responsabilidade por danos. O caso do milho é o mais
grave, pois se trata de uma planta com polinização
aberta e cruzada, na qual a contaminação de lavouras
impede qualquer possibilidade de coexistência entre cultivos
transgênicos e convencionais.